O Pranto do Deserto (Paulo Coelho)

07 dez 2010 | By

Assim que chegou a Marrakesh, o missionário resolveu que passearia todas as manhãs pelo deserto que ficava nos limites da cidade. Na sua primeira caminhada, notou um homem deitado nas areias, com a mão acariciando o solo, e o ouvido colado na terra. “É um louco”, disse para si mesmo.
Mas a cena se repetiu todos os dias, e passado um mês, intrigado por aquele comportamento estranho, ele resolveu dirigir-se ao estranho. Com muita dificuldade – já que ainda não falava árabe fluentemente – ajoelhou-se ao seu lado.
– O que você está fazendo?
– Faço companhia ao deserto, e o consolo por sua solidão e suas lágrimas. – Não sabia que o deserto era capaz de chorar.
– Ele chora todos os dias, porque tem o sonho de tornar-se útil ao homem, e transformar-se num imenso jardim, onde se pudesse cultivar cereal, flores, e carneiros.
– Pois diga ao deserto que ele cumpre bem sua missão – comentou o missionário. – Cada vez que caminho por aqui, entendo a verdadeira dimensão do ser humano, pois o seu espaço aberto me permite ver como somos pequenos diante de Deus.
“Quando olho suas areias, imagino as milhões de pessoas no mundo, que foram criadas iguais, embora nem sempre o mundo seja justo com todos.

As suas montanhas me ajudam a meditar. Ao ver o sol nascendo no horizonte, minha alma se enche de alegria, e me aproximo do Criador”.
O missionário deixou o homem, e voltou para os seus afazeres diários. Qual foi sua surpresa, na manhã seguinte, ao encontrá-lo no mesmo lugar, e na mesma posição. – Você comentou com o deserto tudo que lhe disse?
– perguntou. O homem acenou afirmativamente com a cabeça.
– E mesmo assim ele continua chorando?
– Posso escutar cada um de seus soluços. Agora ele chora porque passou milhares de anos pensando que era completamente inútil, e desperdiçou todo este tempo blasfemando contra Deus e seu destino.
– Pois conte para ele que, apesar do ser humano ter uma vida muito mais curta, também passa muitos de seus dias pensando que é inútil. Raramente descobre a razão do seu destino, e acha que Deus foi injusto com ele. Quando chega o momento em que, finalmente, algum acontecimento lhe mostra o porquê de ter nascido, acha que é muito tarde para mudar de vida, e continua sofrendo. E como o deserto, culpa-se pelo tempo que perdeu.
– Não sei se o deserto ouvirá – disse o homem.
– Ele já está acostumado com a dor, e não consegue ver as coisas de outra maneira.
– Então vamos fazer aquilo que eu sempre faço quando sinto que as pessoas perderam a esperança. Vamos rezar. Os dois ajoelharam-se e rezaram; um virou-se em direção a Meca porque era muçulmano, o outro colocou as mãos juntas em prece, porque era católico. Rezaram cada um para o seu Deus, que sempre foi o mesmo Deus, embora as pessoas insistissem em chamá-lo por nomes diferentes. No dia seguinte, quando o missionário retomou a sua caminhada matinal, o homem não estava mais lá.
No lugar onde costumava abraçar a areia, o solo parecia molhado, já que uma pequena fonte tinha nascido. Nos meses que se seguiram, esta fonte cresceu, e os habitantes da cidade construíram um poço em torno dela.Os beduínos chamam o lugar de “Poço das lágrimas do deserto”. Dizem que todo aquele que beber de sua água, irá conseguir transformar o motivo
do seu sofrimento, na razão da sua alegria; e terminará encontrando seu verdadeiro destino.

Paulo Coelho

Edição:

Linda Rosentar

Equipe Black Angel

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