Ciberstalking – Perseguição e assédio na rede

29 ago 2011 | By

“O que foi que eu fiz?” A produtora Júlia, de 22 anos, se faz essa pergunta toda vez que se lembra dos meses em que espionou, pela internet, um rapaz por quem estava apaixonada. A perseguição virtual começou quando o alvo lhe pediu ajuda para usar a rede social – e passou para ela a senha e o nome de usuário. “A tentação era grande demais. Comecei a entrar na conta dele o tempo todo, ler cada atualização, investigar seus amigos”, afirma. Em certa ocasião, ao xeretar as mensagens privadas do rapaz, ela descobriu um recado não lido, deixado por outra garota. Sem pensar duas vezes, apagou a mensagem, para que o dono da conta nunca lesse. “Eu sabia que aquilo não era certo, mas não conseguia parar.”

O que Júlia não sabia é que, ao apagar aquela mensagem, estava cometendo um crime, que prevê até dois anos de detenção. Ela, que jamais invadiu uma propriedade privada ou roubou algum objeto, praticou uma perseguição virtual, caracterizada por bisbilhotar obsessivamente pessoas com o uso da tecnologia e muitas vezes constranger ou ameaçar a vítima em redes sociais, blogs, e-mails ou mensagens de celular. É o chamado ciberstalking. Em muitos casos, esse comportamento obsessivo dura anos. O fenômeno é um subproduto de nossa exposição nas redes sociais. Com o advento de serviços como o Facebook, o Orkut ou o Twitter, temos o hábito de partilhar mais de nossa vida privada com os amigos e muitas vezes com desconhecidos. Isso cria condições para que algumas pessoas acompanhem nossa intimidade, sem ser convidadas. Há poucas décadas, era preciso seguir a vítima na rua ou espiar com um binóculo em sua janela. Hoje, basta seguir o que ela publica em suas páginas pessoais.

O comportamento é mais comum do que se pensa. Pesquisadores da Universidade East Carolina, nos Estados Unidos, perguntaram a 804 estudantes se já tinham usado a tecnologia para monitorar ou controlar seus parceiros. Metade respondeu que sim, ao menos uma vez. A pesquisa também mostra que as mulheres são mais propensas ao abuso. Uma em cada quatro das entrevistadas afirmou que violava o e-mail de seus parceiros em comparação a apenas 6% dos homens.

O que leva uma pessoa a perseguir alguém, quebrar sua privacidade e chegar ao ponto de prejudicá-la na internet? Existem dois tipos de perseguidores. Alguns são obsessivos patológicos, e a web apenas facilita o acesso às informações sobre a vítima. Mas a maioria são pessoas comuns que passam por situações específicas e temporárias – como o fim de um relacionamento ou um desentendimento no trabalho. Até por estímulo das próprias comunidades virtuais, o que poderia ser uma curiosidade natural corre o risco de virar perseguição. “Qualquer rede social funciona como uma teia de fofocas”, afirma a psicóloga Luciana Ruffo, do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Olhar uma vez ou outra o perfil de um ex-namorado é normal. Mas entrar na página da namorada do cara, das amigas da namorada e daí em diante pode ser indício de que há um problema”, diz ela. O limite é tênue. Uma forma de definir isso é que, quando você não pode mais confessar aos amigos o que faz na rede, seu comportamento já beira o doentio.

Um dos estímulos mais fortes a esse tipo de comportamento é o anonimato da internet. A publicitária Andréa Fernandes de Sá foi perseguida por e-mail por uma mulher que dizia ser amante de seu marido. “Eu acordava de manhã e a primeira coisa que lia era ‘bom dia, corna’ na minha caixa de entrada”, afirma Andréa. Seu marido, o empresário Guilherme Sá, negava tudo, mas o casamento ficou abalado. A desconfiança de Andréa só terminou quando ela recebeu uma das mensagens durante uma viagem com o marido a Nova York. No e-mail, a suposta amante dizia que havia passado a tarde com ele. “Ela não sabia que estávamos juntos”, afirma Andréa. Pesquisando por conta própria, o casal descobriu que a perseguidora morava em Cascavel, no Paraná, era casada e bem mais velha. Depois de mais de um ano de ciberstalking, as mensagens pararam.

Na maioria dos casos, a vítima não é escolhida por acaso. É alguém já conhecido pelo perseguidor, como um colega de trabalho ou uma ex-namorada. A produtora Priscila Sobral foi vítima da atual companheira de seu ex-marido. A perseguição começou em 2007, com ofensas no Orkut. E terminou com um cadastro falso de Priscila em um site de prostituição, com sua foto, seu número do telefone do trabalho e seu e-mail. Priscila procurou a polícia, contratou um advogado e conseguiu um mandato de apreensão do computador da suspeita. “Ela foi condenada a prestar serviços à comunidade”, diz Priscila.

Segundo Renato Opice Blum, especialista em Direito Digital da Fundação Getulio Vargas, a perseguição virtual pode ser enquadrada como perjúrio, calúnia, difamação, ameaça, extorsão ou danos morais. Mas falta uma classificação específica para esse tipo de prática, o que dificulta medir o número de casos e o trabalho da polícia. “A maior parte das autoridades não tem informações ou treinamento adequado”, afirma Michelle Garcia, diretora do Centro Nacional para as Vítimas de Crimes, organização americana que treina pessoas que trabalham com ciberstalking. “Muitos policiais ainda dizem para as vítimas que não podem fazer nada a não ser que ocorra uma agressão concreta”, afirma Michelle.

Para quem sofre ameaças, não é preciso ter provas de contato físico ou violência para considerar o ciberstalking um crime. “Basta guardar as mensagens e as páginas da internet onde a perseguição aconteceu”, diz o delegado Sílvio Cerqueira, da Divisão de Repressão aos Crimes de Alta Tecnologia (Dicat), que presta apoio a todas as outras unidades da polícia. Para quem cai na tentação de dar uma espiada mais ousada pela web, vale a recomendação: se a curiosidade está virando obsessão, talvez esteja na hora de desligar o computador.

Você é um ciberstalker em potencial?

A linha entre a curiosidade e a intromissão é muitas vezes tênue. Se você tem um dos sintomas abaixo, repense suas atitudes nas redes sociais.

· Você precisa entrar no perfil da pessoa várias vezes por dia, com medo de ela apagar algum recado antes de você ler.

· Você não apenas olha o perfil da pessoa, mas explora as páginas dos amigos dela, tanto as informações quanto as fotos.

· Antes de planejar seu fim de semana, tenta descobrir em quais eventos a pessoa confirmou presença, para aparecer no mesmo lugar.

· Ao terminar um relacionamento, sua curiosidade sobre a vida da pessoa aumenta com o tempo e você visita cada vez mais o seu perfil.

· Você tem vergonha de contar para seus amigos sobre seu comportamento na internet.

·  Você deixa de fazer outras atividades, como passear ou mesmo trabalhar, para explorar as atualizações da pessoa nas redes sociais.

Como se proteger do ciberstalking 

Medidas simples podem diminuir sua exposição e as chances de ser vítima de perseguição

· Escolha com cuidado quem pode ver as fotos e mensagens publicadas em seu perfil.

·  Revise com frequência as configurações de privacidade de suas contas. O Facebook passou a oferecer novos meios de proteger seu perfil nesta semana.

·  Desconfie de pessoas que ficam amigas de muitos de seus amigos num curto período de tempo.

·  Nunca aceite estranhos como seguidores.

·  Não exponha documentos importantes na internet. Caso precise fazê-lo, proteja com senha ou até mesmo considere criptografar.

·  Busque pelo menos uma vez por mês seu nome no Google.

Fonte: Perseguição na Rede 

Antonella Barcelos

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