Crônica Sem Carga Horária (Rodrigo Siabonne)

27 fev 2011 | By

Às vezes, paro no caminho para o trabalho, em um boteco (aqui no Sul chamamos de bolicho) e peço um pastel e um refrí de guaraná. Tenho mania de olhar para os populares como se não fosse um deles. Todos ali representam, cada um na sua individualidade, a unidade (desarticulada) dos assalariados regidos sob a CLP. Observo gente feia e ignorante (ou talvez eu é que seja ignorante da preguiça de  justificar a alguém tal adjetivo sem conhecê-lo). O dono do bolicho serve achocolatado de uma forma ignóbil: preenche 1/4 do pequeno e mal lavado copo com o chocolate, e completa com o leite, apenas por preguiça de colocar menos chocolate, mas ter que mexer mais com a colher. E o pobre dono do achocolatado bebe sem levantar um “ai”. Me ocorre que talvez ele tenha cansado de lutar. Talvez tanto faça a forma e o gosto do achocolatado, porque depois de lutar demais, tenha deixado de se importar até com pequenas coisas, ou talvez eu esteja me vendo nele.
Aliás, estaria alguém observando tanto quanto eu, e talvez me vendo como mais um popular, mais um rosto mudo naquela suja colmeia de assalariados? Possivelmente, alguém que se ache tão diferente quanto eu. Se ele existe, talvez jamais saibamos. Seremos um para o outro, eternamente rostos mudos e a nossa diferença nunca será uma semelhança descoberta.

Rodrigo Santarem

Mistério A+

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