O Prazer definido em todos os sentidos

23 jan 2012 | By

PSICÓLOGO ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO- C.R.P. 31341/5- TERAPIA DE CASAL E INDIVIDUAL- RUA ENGENHEIRO ANDRADE JÚNIOR 154- TATUAPÉ SÃO PAULO -SÃO PAULO TELS: 26921958 /93883296

PSICÓLOGO ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO

Este tema foi incrivelmente venerado pelos primórdios da psicologia, justamente pela profunda repressão sexual da era VITORIANA na Europa.

Tentarei descrever o prazer em nossa época assim como suas implicações pessoais e sociais. Inicialmente seria necessária uma distinção entre elementos semelhantes ou adjacentes ao prazer, tais como:

1)    satisfação: pode ser definida como algo mais instintivo: necessidades básicas, comer, beber, estar no lar, sexualidade (esta está presente em todas as esferas que irei citar)

2)    alegria: é um estado de espírito momentâneo, algo que geralmente não planejamos, simplesmente acontece, seja acordar de bom humor, ou alguém nos fazer uma grata surpresa.

3)    Entusiasmo: é a definição radical e primordial da motivação, é termos uma meta, objetivo, ou alguém que nos inspire o melhor de nosso ser.

4)    Prazer: sua definição é mais complexa, seria uma idéia construída, pensada que acabou tendo êxito no decorrer da jornada, é algo que podemos chamar de realização. Na época de FREUD obviamente o prazer se inseria na primazia do instinto sexual, hoje diria que o ser humano já possui uma boa dose de prazer se conseguir burlar constantemente o tédio.
Adiante retomarei um pouco mais tais definições. O caráter sagrado do prazer é a percepção do que realmente é importante para nós e todas as conseqüências pessoais e sociais de nossas escolhas. A parte mais negativa do prazer observada hoje em dia é a competição que leva ao sadismo e exclusão social. O prazer verdadeiro equivale à ausência de comparação, se concentrando nas necessidades pessoais que conduzem realmente ao relaxamento de nosso mais puro íntimo, se permitindo tempo para recobrarmos nossa energia. Prazer é sinônimo de vitalidade e originalidade, e nunca comparação com o suposto prazer alheio. É de impressionar a falta de habilidade intelectual e emocional da maioria das pessoas com relação ao tempo vago. Não estou nem falando da solidão, mas na incapacidade de se ater ao terreno humano propriamente dito. Somos praticamente máquinas o tempo todo, e estamos a cada dia perdendo a noção de como lidar com a afetividade. Quando tudo isso começou, com o despontar da tecnologia? Porque tanto gregarismo psíquico e social? Respondendo a primeira indagação, nunca acreditei que a tecnologia fosse a responsável pelo problema citado, mas que o ser humano sempre  utiliza desculpas ou estratagemas para fugir da questão emocional.

O prazer se enquadra nos critérios determinantes da chamada normalidade ou neurose. Justamente como o individuo lida com o mesmo é que se estabelecerá em qual dos dois pólos citados se encontra.

1) Aqueles que não conseguem vivenciá-lo, pois sempre são assolados por um processo de culpa, ou então o deixam para um segundo plano, pois tem a característica de priorizar uma solidariedade neurótica com os infelizes ao seu redor.

2) Aqueles que extrapolam a questão do prazer, corroendo por completo o mesmo, sendo que o resultado é a mais pura escravidão através de determinado vício.

3) aqueles que o “economizam”, com medo de serem testados ou julgados, os tímidos. Estes, infelizmente se privam de uma das coisas mais importantes da vida que é a troca com outro ser humano, se fechando em seu mundo de medo. Aliás, podemos inferir que a neurose se instala justamente com o exercício apenas de um prazer de forma individual, como exemplos: a masturbação quando a mesma troca quase que por completo o ato sexual com o outro; perversão sexual que tem a tendência a denegrir o objeto sexual, ou colocar o parceiro em um segundo plano (primeiro a tara propriamente dita), timidez citada que leva à fuga de contatos pessoais e sociais, preenchimento com o materialismo de experiências frustrantes na área emocional.

Citando novamente o contexto do início da psicologia, o prazer estava interditado pela moral e imposição da culpa daquela época; hoje o interdito do prazer é a absoluta falta de regras para o mesmo. Digo isto pois ao contrário do que muitos pensam, prazer não é apenas férias ou relaxamento, mas todo um planejamento de satisfação e felicidade acima de tudo mútua ou coletiva, e nunca um gozo privado apenas. O prazer define também um dos sentidos da vida, que é a necessidade da troca ou correspondência do afeto, e não apenas sempre tagarelar unicamente sobre seu problema ou depressão pessoal, muito comum nos tempos atuais. Uma das maiores lendas da humanidade diz da expulsão do paraíso e instalação do trabalho como castigo para o ser humano impuro. O fato é que tal esforço não se concentra apenas na área do sustento, mas em tudo que o ser humano toca. Mesmo quando dormimos nosso inconsciente está a trabalhar, através dos sonhos ou pesadelos, então com o prazer não é diferente, há também o império do esforço para sua obtenção. Talvez o maior tabu da humanidade seja a incapacidade plena para uma revolução no âmbito pessoal, pois a revolta em qualquer área política ou familiar é extremamente fácil, e essa é a mais pura verdade. Mas como todos se encontram extremamente cansados pela batalha diária por dinheiro ou ambição, tal fato é facilmente omitido do imaginário coletivo.
Temos de pensar para entendermos alguns obstáculos para a consecução do prazer. O que é ativado ao lado do mesmo nas diferentes fases da vida?

Na infância: dependência, fantasia, necessidade de cuidados e sexualidade polimorfa.

Na adolescência: rebeldia e protesto, agressividade e auto afirmação, sexualidade exploratória.

Na fase adulta: ambição, poder, apego, combate à solidão, sexualidade junto com intimidade e projeto familiar. Claro que os elementos citados não são rígidos ou exclusividade da fase discorrida, e também a mistura dos mesmos pode ocasionar transtornos de personalidade, tipo a persistência da dependência na fase posterior da vida (uma mente infantil num corpo de adulto). Determinada rotina, seja gastronômica, física ou de trabalho faz parte do prazer, por outro lado este último atinge seu cume na mudança, transformação e no esforço para a consecução do novo ou inesperado. Mudar conceitos ou nosso estilo de vida em benefício próprio ou da harmonia seja conjugal ou social, é uma das artes mais nobres e infelizmente raras dos seres humanos. Aqui se insere o ponto sobre até quando uma convicção exacerbada ou excesso de fé em algo são realmente produtivos ou saudáveis. Nossa certeza ou hábito pode encobrir ou mascarar nosso maior vício comportamental perante outro ser humano. Voltando as fases do desenvolvimento, inicialmente a criança só tem seus pais no tocante a saciar suas necessidades vitais, teme estranhos, resiste em ir à escola (não generalizando), mas depois adora a descoberta de compartilhar brincadeiras com seus colegas, mas não tarda em correr o risco de um retrocesso caso tema ser objeto de julgamento ou humilhação por parte do meio em que convive, é neste exato ponto que se instala a questão da timidez, então aquilo que já era hábito de convívio social, retoma com força total ao plano individual ou isolamento. Esse processo também pode ocorrer em larga escala no período da adolescência, fechando ou blindando o indivíduo para sempre numa esfera de satisfação ou prazer privado, como exemplos: perversão sexual, acúmulo de dinheiro para encobrir os mais diferentes tipos de complexos de inferioridade, problemas com alimentação e drogas.
A verdade é que as lembranças mais efervescentes de nossa vida se referem a momentos de lazer ou troca com outra pessoa que nos marcou, e a percepção da infelicidade é quando descobrimos que tais momentos duraram tão pouco em nossa vidas. Voltando ao nosso histórico pessoal, devemos refletir o quanto de prazer obtivemos na infância, adolescência e fase adulta, e o que nos marcou durantes tais períodos. Alguém perguntaria agora sobre determinada pessoa que quase nunca o vivenciou, se ainda é possível à obtenção de determinado gozo? Diria que a resposta é simples, a influência passada ou até a genética se tornam um império apenas para as personalidades que vivem atoladas no inconformismo. Ao contrário da convicção popular, não são a dor ou o sofrimento os bloqueadores naturais do prazer, pois ambos jamais têm a dimensão de perdurarem eternamente, a ansiedade é o obstáculo supremo, pois irá sempre desviar a atenção do foco ou corroer uma experiência que seria natural. Notem que a ansiedade já é o mais popular distúrbio psicológico de nossa atualidade, afetando quase todas as esferas emocionais, racionais e intelectuais da pessoa, além da execução de atividades básicas, tipo o sono, alimentação e relaxamento. A ansiedade obviamente é um sinal de alerta do organismo que diz de sua insatisfação quando a mente racional tenta se adaptar a qualquer custo perante uma obrigação que nos desagrada, mas que não conseguimos fugir da mesma.
*Se pensarmos até no caráter mítico, o prazer é derrubado pela chamada benção do sacrifício, voltando aos rituais da antiguidade, onde era uma dádiva ser oferenda aos deuses. O altar do sacrifício é a representação histórica da humanidade que mais simbolizou não apenas a violência, mas o despojo do ser humano em relação às suas verdadeiras necessidades pessoais. Nos tempos atuais recusar a neurose é exatamente afastar dito sacrifício para a consecução de uma linha progressiva de satisfação. Infelizmente o sentimento de miserabilidade interior tem a característica de contar supostamente com o apoio do outro, sendo o mais puro mimo que sobrou da infância que a pessoa teima em preservar. Notem que o sacrifício se parece totalmente com o sofrimento moderno: gastar demais, chorar compulsivamente, o desperdício em última instância, seja da vida no passado com os rituais citados, e hoje em dia renegar a busca por uma plena saúde mental*. O que talvez muitos não percebam é que prazer não deixa de ser o rompimento com vínculos do passado, e estabelecimento da independência do self do sujeito, sendo a suprema meditação ou vínculo com o que seria essencial para a pessoa se desenvolver, crescer, trocar e realmente obter uma recompensa para seu espírito. Infelizmente neste caso, o vírus mortal é a necessidade de adaptação ou comparação tão impregnada em nossas mentes.
Diz-se que o ser humano é saudosista por natureza biológica e psicológica, assim sendo, as lembranças infantis positivas e negativas o marcam de forma indelével para o resto da vida. Embora isso seja um fato, o prazer genuíno tem um toque de algo espontâneo, a alegria citada anteriormente, ao contrário de nosso cotidiano marcado pela ambição e necessidade de segurança, esta última é a corrupção máxima do prazer em nossa era. Prazer jamais é um emprego com alto salário, mulher ou homem com estética avantajada, mas a possibilidade de um constante desenvolvimento ou crescimento, já que a estagnação também está presente na fartura ou riqueza. Prazer é um reconhecimento diário de suas potencialidades, seja pelo próprio indivíduo ou seu meio. Obviamente muitos associam o prazer ao dinheiro, nada poderia ser mais falso, pois este último é como uma espécie de instrumento de precisão, a não habilidade ou imperícia para com o mesmo o torna inútil e até perigoso. O prazer exige perícia, prudência, vontade de ter e ser companheiro, abnegação, solidariedade e correspondência.
Assim como na questão orgânica necessitamos de pequenas doses de alimentos várias vezes ao dia, o mesmo se dá em relação ao prazer do ponto de vista psicológico. A privação exagerada leva apenas a se extravasar uma energia contida em situações tipo: finais de semana ou férias, que jamais irão suprir as necessidades do indivíduo. O prazer necessita de vivência diária, como um trabalho satisfatório, convívio social e relação amorosa. Em vários de meus trabalhos, sempre ressaltei a importância da criatividade, e no prazer não poderia ser diferente conforme observei anteriormente. Infelizmente a tendência atual do ser humano é a reprodução quase que exata de seus antepassados, ou seja, o atavismo é pura moda hoje em dia, ao contrário de algumas décadas passadas onde a rebelião ou o protesto tentou ecoar seus gritos. O fato é que nos rendemos ao hábito, apego e principalmente medo. Para que inovar se já temos uma estrada sinalizada e pavimentada, mesmo que a mesma apenas conduza ao sofrimento já vivido por outras gerações. Fazemos com o prazer à mesma coisa com a questão da formação acadêmica, nos acomodamos, e poucos procuram realmente uma atualização verdadeira, afora titulação ou prestígio que passam longe de um saber original ou que conduza a novas descobertas na área psíquica do ser humano. Seguimos sem nenhuma contestação um suposto modelo de saber, onde a criatividade individual é mera reprodução de uma metodologia pedagógica e psicológica que jamais nos deram uma gota de prazer em nossas vidas.

Comparemos as épocas para observamos o que sempre atrapalhou ou tolheu o prazer propriamente dito: no século XIX: repressão sexual e moral exacerbada, hoje em dia: vazio existencial, timidez e contradição entre o sofrimento da solidão e tédio ou desgaste perante a convivência com o parceiro. No passado: dominação perante a mulher ou subserviência da mesma, hoje em dia: falta de amizade e companheirismo e disputa de poder entre ambos. Passado: delegação dos cuidados dos filhos apenas para o lado materno, atualidade: ausência de limites por culpa dos pais terem de  trabalhar fora, ou qualquer outro elemento social, extinguindo o prazer ou normalidade familiar. A verdade é que o prazer é mais um elemento em extinção dada à contaminação de tanta preocupação e insatisfação da vida moderna, fazendo com que o mesmo se torne rotina, vício, apego ou fuga. Outro ponto que o está dizimando é a questão do consumismo. Este ilude por completo a pessoa, dando a sensação de segurança, posse, poder e inclusão social, além de ser admirado ou invejado pelo meio. Porém, todos sabem que seu efeito é pusilânime. O consumo não pode ocasionar o prazer pleno, por uma questão muito simples, além de sua gênese ser interminável, entra o caráter competitivo e narcisista, produzindo a permanente loucura e paranóia de que um concorrente tenha sobrepujado todos os nossos esforços.

Assim como a água, o prazer para chegar próximo de sua pureza deve ser filtrado, se eliminando suas toxinas (consumismo, ansiedade, desejo de segurança). Devemos estabelecer também uma relação entre prazer e felicidade; pode haver o primeiro sem a segunda, mas esta última implica em ter prazer e gozá-lo de modo constante e pleno. Prazer também é momento, e felicidade não deixa de ser um projeto no qual nunca o terminamos, mas que está em constante processo de aprimoramento. A verdade é que o inferno maior de todos é ter o objeto ou companheiro para o prazer e estar incapacitado para desfrutá-lo. Essa contradição de terror tem a mesma importância a ser desvendada de que qualquer doença fatal que assola a humanidade. Prazer não deixa de ser um treino ou educação para o mesmo, mas saber se educar ou educar alguém implica em se importar no mais fundo de sua alma, tal sentimento passa a ser mais forte e importante do que o amor muitas vezes, pois este último quase sempre está contaminado por uma subjetividade enganosa ou expectativa irreal; já o se importar é ser objetivo com suas necessidades pessoais e as de seus semelhantes. O se importar significa a erradicação de qualquer tipo de assistencialismo que apenas significa que o educador está compensando sua carência nos cuidados para com o outro. Se importar mantém vivo a crença no potencial do outro e de que o mesmo será capaz de enfrentar e transpor obstáculos sem o choro compulsivo ou o discurso de vitimização, tão comum em nossos dias.

Sobre o tão propagado conceito moderno de intolerância à frustração, diria que tal fenômeno advém primeiramente no hábito ou apego de que tudo iria correr bem eternamente, segundo, seria um protesto inconsciente contra uma provável “divindade” que ao invés de continuar nos protegendo, optou por nos punir. Claro que não estou recomendando a aceitação com relação ao inferno de nossa sociedade, mas relutamos em perceber que cada vez mais estamos sós e valemos muito pouco para o âmbito coletivo. O antídoto não é nenhuma explosão de narcisismo, vaidade ou ainda ganância, como a maioria tenta fazer, mas a junção de uma paciência com a criatividade daquilo que temos certeza que irá nos desenvolver em vários pólos existenciais. É fácil perceber que o ser humano nunca atingiu um ponto de equilíbrio entre: prazer, atenção, disciplina, compulsão, descontrole e controle. Nossas emoções nos traem diariamente. O resultado é o sentimento de culpa, isolamento timidez e medo. Até observamos alguns semelhantes saudáveis do ponto de vista psicológico, mas, que obviamente também tem seus percalços. Todo o exposto acima revela as falhas cruciais do ser humano que são: baixíssima preocupação com a coletividade, ambição e egoísmo, desprezo pelos menos afortunados, desamor para com os mais próximos, ausência da verdadeira vontade de mudar sua atitude perante a vida como um todo. A busca do prazer individual ou privado, retomando o assunto, é o câncer máximo de nossa era, e o principal causador da solidão citada. Jamais poderemos desfrutar de algo genuíno e duradouro sem uma testemunha ou cúmplice da satisfação. O gozo individual é como a masturbação, limitada, alucinatória, servindo apenas como instrumento de descarga sexual e da tensão. Enfim, prazer é o talento máximo para a arte da divisão, empenho e sacrifício saudável perante algo ou alguém que nos leve a uma meta superior de vida.

PSICÓLOGO ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO

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2 comentários em “O Prazer definido em todos os sentidos

  1. RickReymondNo Gravatar disse:

    Para mim o prazer é puramente individualista e egoísta, único e próprio de cada individuo, podendo ser compartilhado mas não recebido na mesma intensidade. (Palavras de Rick Reymond) :cool:

  2. RickReymondNo Gravatar disse:

    Para mim o prazer é puramente individualista e egoísta, único e próprio de cada individuo, podendo ser compartilhado mas não recebido na mesma intensidade( para + ou para -- ). (Palavras de Rick Reymond) :cool:
    Observem segundo ao que ELE fala :O prazer verdadeiro equivale à ausência de comparação, se concentrando nas necessidades pessoais que conduzem realmente ao relaxamento de nosso mais puro íntimo, se permitindo tempo para recobrarmos nossa energia. Prazer é sinônimo de vitalidade e originalidade, e nunca comparação com o suposto prazer alheio.

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