Até que ponto os estudos sobre o impacto dos alimentos na saúde merecem crédito?

30 out 2013 | By

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Uma das causas da baixa confiabilidade de muitas pesquisas na área são as amostras pequenas

Aconselhamento nutricional é, hoje, talvez mais popular que aconselhamento sentimental. Nas revistas voltadas para o público feminino (e masculino também) o espaço para dicas de dieta já é quase tão grande, ou maior, que o das dicas sobre como se dar bem na noite de sábado. E o mesmo fenômeno já é perceptível na mídia mais tradicional, com jornalões, revistas semanais e programas de televisão abrindo espaço para estudos que relacionam este ou aquele alimento a este ou aquele benefício – ou malefício – para a saúde humana.

O bombardeio de informação nutricional é tamanho, de fato, que muitos simplesmente se desesperam de seguir o assunto. Afinal, até que ponto os estudos sobre o impacto dos alimentos na saúde merecem crédito?

A resposta, infelizmente, é que depende do estudo. Como qualquer outra atividade humana (incluindo a culinária) a ciência também não está imune de produzir porcaria. A ciência tem a vantagem de conter mecanismos de correção que tendem a garantir que, no longo prazo, só os bons resultados sobrevivam, mas para quem está preocupado em escolher os ingredientes do almoço de amanhã, esperar o longo prazo pode não ser uma opção. Então, o que fazer?

Um levantamento publicado em janeiro deste ano na revista científica American Journal of Clinical Nutrition (Jornal Americano de Nutrição Clínica) analisou 50 ingredientes comumente citados em receitas culinárias, e determinou que existem estudos ligando 80% deles a um aumento ou redução do risco de câncer. Entre os ingredientes analisados estão sal, pimenta, ovo, leite, queijo, café, bacon, cenoura, tomate e limão. E sobre cada um há estudos, em algum lugar por aí, mostrando alguma relação, positiva ou negativa, com o câncer.

Mas, como se diz, o diabo mora nos detalhes.

Primeiro, a maior parte das estimativas de risco – 75% delas – tem significância estatística baixa ou nula: em outras palavras, a ligação entre o produto e o câncer, quando apareceu nos trabalhos analisados, é bem fraca e, em muitos casos, pode até ser falsa.

E o mais importante: em metanálises – onde vários estudos sobre um mesmo assunto são combinados estatisticamente, para produzir um resultado mais confiável – os efeitos detectados diminuem drasticamente, com a média geral tendendo a zero.

Uma das causas da baixa confiabilidade de muitos estudos nutricionais são as amostras pequenas: do mesmo jeito que não dá para concluir que todos os moradores de um prédio são crianças, só porque vimos três meninas de sete anos entrando nele, em saúde também é complicado tirar inferências de pesquisas com um número reduzido de participantes.

Para a maioria das pessoas, filtrar a qualidade da ciência sobre nutrição é um a tarefa impossível: é para isso que existem médicos, nutricionistas e jornalistas. Mas quando até os profissionais parecem confusos, o melhor é se lembrar do conselho do blogueiro (e médico) Steve Novella: “Comida é bom para a saúde. Recomendo que você coma todo dia. A comida dá nutrição, vitaminas e minerais, e energia. Se você não comer, sua saúde vai sofrer. Mas não coma demais: isso não é saudável”.

Revista Galileu(Olhar Cético)

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