‘Redes sociais mostram forças em manifestações do povo

17 jun 2013 | By

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Na semana passada, um dos textos que circulou pela internet relacionado aos protestos foi uma suposta “carta de um policial militar” publicada anonimamente no blog Abordagem Policial, um dos maiores no País sobre polícia e segurança pública.

“No front não há raciocínio. ‘A determinação é desocupar a Avenida’. Um sentimento de dever nos une, e a determinação será cumprida”, diz a carta, que levou 80 mil visitantes ao blog em um único dia. Mas como funciona exatamente a ação policial no caso de manifestações e grandes protestos como o da última quinta-feira e os que vão acontecer nesta segunda-feira pelo Brasil?

As polícias militares seguem, em geral, uma cartilha que define o uso progressivo da força. Os documentos são confidenciais, mas é possível acessar versões simplificadas pela web. Para saber como funciona essa estratégia, conversamos com Danillo Ferreira, tenente da Polícia Militar da Bahia e autor do blog Abordagem Policial.

Para ele, que também é associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as polícias precisam rever a sua estratégia em um tempo em que os protestos são descentralizados e não há lideranças claras. “Sem entender que não é mais possível focar em uma liderança e convencê-la da desmobilização, dificilmente qualquer polícia conseguirá se sair bem em protestos públicos”, ele analisa.

Confira a entrevista:

Reporter- Qual foi o maior erro da polícia nas últimas ações para controlar os protestos?
Danillo Ferreira: Acredito que as redes sociais colocaram um novo desafio para a doutrina de controle de distúrbios civis das polícias: já que os protestos não possuem liderança formalizada, já que é possível se comunicar no local dos protestos através do celular, reorganizando novas mobilizações instantaneamente, já que não há mais controle midiático do que aparecerá como a “cara” das manifestações, como controlar os protestos? Sem entender que não é mais possível focar em uma liderança e convencê-la da desmobilização, dificilmente qualquer polícia conseguirá se sair bem em protestos públicos.

O que precisa mudar?
Acredito que as polícias precisam rever este entendimento de relacionamento com protestos e manifestações. Em Minas, uma Coronel peitou uma decisão judicial e simplesmente garantiu que o protesto ocorresse. Nenhuma violência foi detectada.

Mas ela corre o risco de ser punida, né?
É… Pois o Governo solicitou uma liminar (concedida) à Justiça proibindo manifestações durante a Copa das Confederações. Já que ela interceptou ruas e garantiu que o protesto ocorresse, é possível que se entenda que ela descumpriu a liminar.

Como funciona a estratégia da PM em manifestações?
A regra geral do entendimento de gerenciamento de crises e uso progressivo da força é que aos poucos a polícia inicie com sua presença, passando pelo contato verbal (negociação) e só em último caso usar a força. Sem este elemento central (negociação), pois não há liderança para negociar, é como se a PM passasse diretamente para o nível de uso da força.

E como isso pode ser melhorado?
Acho que esse novo formato de protesto e mobilização, sem centralização de liderança, sem formalização de um representante que fale por todos, deve o tratamento da “adesão” policial. O que quero dizer com isso? Que as polícias agora terão que garantir que o protesto ocorra com os menores danos possíveis. No máximo, prevenir que ações isoladas de manifestantes exaltados ocorra. Nesse sentido, não é, de fato, necessário que forças de repressão se façam presentes. Um direito valioso está sendo garantido: o da liberdade de expressão. A PM não precisa de bombas para garantir que o povo fale.

O que explica a truculência da PM neste caso?
Tentar evitar que os protestos sigam pelas ruas é impossível. Antes se conversava com o líder da manifestação e ele dizia se o protesto ia seguir ou não. Sem liderança constituída, esta via de contenção não existe. E, claro, os policiais seguem a determinação estabelecida pelo governo: é para deixar o movimento passar ou não? Se sim, não há repressão. Se não, a PM usa a força e o desdobramento é o que se viu.

Existe alguma ‘cartilha’ sobre como a policia deve se comportar em protestos desse tipo?
Cada Polícia Militar possui sua doutrina do que chamam de “Controle de Tumultos e Distúrbios Civis” (CTDC), que se alinha à doutrina de Gerenciamento de Crises e Uso Progressivo da Força. Mas no Brasil essas doutrinas são bem semelhantes entre as polícias militares.

Você acha que nos casos de São Paulo e Rio de Janeriro a polícia pulou alguma etapa nessa estratégia progressiva de controle? Ou é hora de rever essa estratégia nessa nova configuração de manifestações sem líderes?
Entendo que as polícias precisam se debruçar sobre essa nova forma de protesto e reivindicação. Passar da condição de quem consegue evitar que o protesto ocorra para quem garante que ele ocorra com o menor dano possível. Se os manifestantes não querem algo especificamente, não é possível haver “moeda de troca” política. Se não há liderança, não é possível “negociar” nos termos tradicionais. O que resta é o respeito à liberdade de expressão. Isto as polícias podem se propor a garantir, evitando danos e desgastes.

Revista Galileu

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